O desejo é o desejo do Outro. Esta genial fórmula lacaniana divide o desejo em duas partes: o desejo é desejo de desejo, desejo de desejar; e é um desejo de, do, Outro, um desejo outro. Nesta fórmula, portanto, está presente a divisão entre o Mesmo (o desejo do desejo) e o Outro (desejo do outro) que traduz o paradoxo do desejo que circula sobre si mesmo, num arco ou numa dobra, mas sem se fechar ou se completar. Ora, a incompletude do desejo, seu não-fechamento, é precisamente aquilo que o faz se movimentar, que o impede de se estabilizar como o Mesmo. Manter-se como o Mesmo é o ideal narcísico que, curiosamente, é também o ideal neurótico o que indica que a neurose é um caso especial do narcisismo, o que Freud, aliás, foi o primeiro a intuir. Ao fechar-se loucamente para a entrada, chegada, para a “penetração” do Outro, o neurótico apenas demonstra o apego à imagem idealizada de si próprio, vendo em qualquer alteridade uma potencial ameaça a sua tão prezada mesmidade.
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Teses sobre o desejo (10)
“Narciso acha feio o que não é espelho”: o aspecto monstruoso do desejo é o de sua estranheza, de parecer vir de um outro lugar, de não lhe “pertencer”. Portanto, o primeiro ato em relação ao desejo é o de reconhecimento. Reconhecer o desejo é oposto a reprimir o desejo. No lugar de dizer “não quero saber nada disso”, frase predileta dos histéricos e neuróticos ao recusarem a forma monstruosa do desejo, o ato de reconhecer o desejo como um desejo seu, próprio, é o passo inicial de estar “conforme a seu desejo”. É um ato não apenas ético, mas estético, de fazer a “monstruosidade” se tornar algo belo, apenas por uma mudança de perspectiva, como um ato de assumir o próprio desejo. Assim, a famosa “luta pelo reconhecimento” de que falava o filósofo Hegel é travada inicialmente em nossa intimidade. Como querer que os outros nos reconheçam se nós mesmos não nos reconhecemos? Mas aí entra algo de sutil, pois um reconhecimento de si, como um olhar para si próprio, tem algo de paradoxal. Não podemos olhar para nós próprios (i.e. para “nós outros” como bem dizem os ibéricos...) a não ser passando pela alteridade de um olhar que vem de “fora”...
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Teses sobre o desejo (9)
Por que se quer reprimir o desejo? Simples a resposta: porque ele é monstruoso. Porque a imagem que ele nos retorna, depois de seu circuito, é deformante, estranha, incongruente. Mas esta estranheza é absolutamente necessária. Ela expressa a alteridade essencial do caráter do desejo. O desejo parece vir de outro lugar, de um lugar estranho e distante. “Este desejo não me pertence”, é a reação clássica do neurótico ou da histérica quando sente a emergência do desejo. É como se um “outro” estivesse desejando, no lugar de nós mesmos. E, na verdade, é esta dialética entre o outro e o mesmo que faz a realidade conflituosa do desejo. Para entender esta dialética é preciso recorrer ao mito de narciso. Narciso é aquele que, segundo a lenda grega, se apaixonou por sua própria imagem. Mas a lenda nos adverte que ao vê-la refletida na superfície de um lago, Narciso ficou enfeitiçado. Entrou, por assim dizer, em “loop”: encontrou a imagem ideal de si próprio e não precisou de mais nada. Completou-se em sua própria imagem perfeita e, assim, nada mais desejou. Tornou-se uma flor que, não por acaso, tem efeitos entorpecentes. Pois, não precisando de mais nada, além de sua imagem perfeita, Narciso adormeceu, adormeceu-se, adormeceu seu desejo. É exatamente para evitar esta identificação narcótica e paralisante que o desejo nos retorna sempre com um aspecto monstruoso...
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Teses sobre o desejo (8)
Uma linha “magnética” que vai do sul ao norte, ou dos “membros” inferiores aos “membros” superiores, através de um arco vetorial é uma boa metáfora para a trajetória do desejo. E, no entanto, neste percurso, de sua origem sexual ao seu destino “mental”, ocorre um lapso de tempo, um atraso, um retardo. Só podemos saber do desejo sempre “a posteriori”, nunca “a priori”. Um dos fundamentos básicos da psicanálise é justamente o caráter “inconsciente” do desejo: nunca podemos saber de nosso desejo, do que o motivou, a não ser depois de já ter ocorrido, sempre “depois”. Só sabemos do desejo seguindo seus efeitos, isto é, interpretando seus sinais (“sintomas”). “O desejo é a sua interpretação” é uma das primeiras fórmulas lacanianas sobre o desejo. Interpretá-lo é tudo o que podemos saber dele, se é que queremos saber dele. Normalmente, para a imensa maioria das pessoas, não: não se quer saber do desejo, só se quer reprimi-lo...
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Teses sobre o desejo (7)
Para a psicanálise, o que causa o desvio do sexo de seu objetivo “natural” reprodutivo é o desejo. Aqui há uma relação dialética: por um lado, o sexo, como corte, rasgo, fissura, é o que possibilita a emergência do desejo; por outro, o desejo funciona como um elemento perturbatório que desvia o sexo de sua rota “natural”. Sem o desejo, o sexo entre os seres humanos seria uma atividade tão regular e limitada como em todos os demais animais. Sem o sexo, no entanto, não haveria desejo. Podemos imaginar didaticamente o sexo como um corte passando pela linha da cintura e dividindo cada pessoa entre um pólo sul, abaixo da cintura, e um pólo norte, acima da cintura, tal como um dipolo magnético. Nesta modelagem, o desejo poderia ser desenhado como uma linha vetorial “magnética”, saindo do sul e fazendo uma curva, uma deflexão, um arco, afastando-se e atravessando o “mundo”, mas retornando afinal ao pólo norte como ponto de chegada. Assim, o desejo não conseguiria completar uma “volta” completa, exatamente porque o corte sexual gera uma área de “sombra” refratária entre os dois pólos. É exatamente esta impossibilidade de “completar” o ciclo que faz do desejo algo tão incongruente, incompleto, fissurado, ou, em outra palavra, “estranho”...
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Teses sobre o desejo (6)
A polimorfia sexual humana foi negada através dos tempos por valores religiosos e morais, mas foi defendida pela psicanálise desde o início, para escândalo da mentalidade puritana do início do século XX. A dissociação entre sexo e reprodução, no ser humano, ainda é negada, por exemplo, pela própria Igreja Católica e esta negação é um valor moral que pesa sobre milhões de casais. Porém, quando a pílula anticoncepcional surgiu na década de 60, esta invenção tecnológica foi uma comprovação prática da teoria psicanalítica, assim como o laser, por exemplo, surgido na mesma época, é uma comprovação da física quântica (contemporânea da psicanálise). Mas o que, no ser humano, causa esta dissociação? Por que o comportamento sexual humano não é programado como nos demais seres? Isto não iria contra a própria seleção natural que precisa garantir e otimizar a reprodução sexual combinatória? Fazer sexo sem visar a reprodução da espécie não é contraproducente, na perspectiva evolucionista? Sem dúvida, o casamento, por exemplo, é um tipo de “programa” evolutivo, uma ritualização do acasalamento sexual e uma forma social de garantir a continuidade do “homo sapiens”. Mas, como qualquer casal sabe, o casamento não passa de um daqueles “pretextos” que os cônjuges assumem socialmente para realizar intimamente uma variedade de práticas não lá muito “politicamente corretas” de acordo com os códigos evolutivos...
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