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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Futuro, de Leonard Cohen (Tradução de Guilherme Preger)

O Futuro – de Leonard Cohen (tradução de Guilherme Preger)

Devolva-me minha noite perdida
meu quarto espelhado, minha oculta vida
É tão solitário este lugar
não sobrou ninguém para torturar
Me dê controle totalmente
sobre toda alma vivente
E deite-me ao meu lado, Querida
Isso é uma ordem!
Dê-me crack e sexo anal
Pegue a única árvore que sobrou afinal
E preencha o buraco vazio
da sua cultura
Dê-me de volta o muro de Berlim
Dê-me são Paulo e Stalin
Eu vi o futuro, irmão:
é matar sem perdão.

As coisas irão deslizar, deslizar pra todas as direções
Não será nada
Nada que você meça jamais
A nevasca, a nevasca do mundo
cruzou o limiar ao fundo
e abagunçou
a ordem do espírito
Quando eles disseram: arrependa-se, arrependa-se
Eu me pergunto o que se pensa
Quando eles disseram arrependa-se, arrependa-se
Eu me pergunto o que se pensa
Quando eles disseram arrependa-se, arrependa-se

Você não me conhece pelo vento
jamais conhecerá, nem em pensamento
Eu sou o pequeno judeu
que escreveu a Bíblia
Eu vi as nações na riqueza e na decadência
Ouvi suas histórias, ouvi com paciência
mas o amor é a única máquina de sobrevivência
Seu servo está aqui, lhe disseram que, prontamente,
deixasse tudo claro, friamente:
Acabou e não irá
mais além.
E agora pararam as rodas do céu
você sente o chicote do diabo bater ao léu.
Prepare-se para o que virá
é matar.

As coisas irão deslizar, deslizar pra todas as direções...

Haverá a quebra do antigo
código do Ocidente
Sua vida privada explodirá num repente
Haverá fantasmas
Haverá incêndios na estrada em frente
e o homem branco dançando
Você verá uma mulher
pendurada pelos pés
suas feições cobertas pelo vestido caído ao revés
e os pequenos poetas medíocres
chegando mais
querendo soar como Charlie Manson
e o homem branco dançando.

Dê-me de volta o muro de Berlim
Dê-me são Paulo e Stalin
Dê-me Cristo
Ou dê-me Hiroshima
Destrua agora outro feto
Não gostamos de crianças por certo
Eu vi o futuro, Querida
é matar


As coisas irão deslizar, deslizar pra todas as direções
Não será nada
Nada que você meça jamais
A nevasca, a nevasca do mundo
cruzou o limiar ao fundo
e abagunçou
a ordem do espírito
Quando eles disseram: arrependa-se, arrependa-se
Eu me pergunto o que se pensa
Quando eles disseram arrependa-se, arrependa-se

Eu me pergunto o que se pensa
Quando eles disseram arrependa-se, arrependa-se

"The Future", Leonard Cohen

Give me back my broken night 

my mirrored room, my secret life 

it's lonely here, 
there's no one left to torture 
Give me absolute control 
over every living soul 
And lie beside me, baby, 
that's an order! 
Give me crack and anal sex 
Take the only tree that's left 
and stuff it up the hole 
in your culture 
Give me back the Berlin wall 
give me Stalin and St Paul 
I've seen the future, brother: 
it is murder. 

Things are going to slide, slide in all directions 
Won't be nothing 
Nothing you can measure anymore 
The blizzard, the blizzard of the world 
has crossed the threshold 
and it has overturned 
the order of the soul 
When they said REPENT REPENT 
I wonder what they meant 
When they said REPENT REPENT 
I wonder what they meant 
When they said REPENT REPENT 
I wonder what they meant 

You don't know me from the wind 
you never will, you never did 
I'm the little jew 
who wrote the Bible 
I've seen the nations rise and fall 
I've heard their stories, heard them all 
but love's the only engine of survival 
Your servant here, he has been told 
to say it clear, to say it cold: 
It's over, it ain't going 
any further 
And now the wheels of heaven stop 
you feel the devil's riding crop 
Get ready for the future: 
it is murder 

Things are going to slide ... 

There'll be the breaking of the ancient 
western code 
Your private life will suddenly explode 
There'll be phantoms 
There'll be fires on the road 
and the white man dancing 
You'll see a woman 
hanging upside down 
her features covered by her fallen gown 
and all the lousy little poets 
coming round 
tryin' to sound like Charlie Manson 
and the white man dancin' 

Give me back the Berlin wall 
Give me Stalin and St Paul 
Give me Christ 
or give me Hiroshima 
Destroy another fetus now 
We don't like children anyhow 
I've seen the future, baby: 
it is murder 

Things are going to slide ... 


When they said REPENT REPENT ...  


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mas a Vilania


Mas a Vilania... (Laura Riding, Tradução de Guilherme Preger)

Não é por ela própria
Que eu amo a vilania
Mas a vilania tem jeitos tão doces!

Ladrões caminham à noite
E tornam a noite mais silenciosa

Assassinos amam a loucura
E o momento da grande coragem de matar.
Não é que eu goste de matar,
Mas bons homens se amansam em sua sanidade
E sorriem demais.

A crueldade tem mil charmes
A dor é uma beleza lanhada em minhas costas.
Oh, por que a piedade é meiga?
Oh, por que a justiça é cega?
Cega demais para a punição?

O Mal tem tantos feitiços quanto a noite.
Mentiras são misteriosas como as estrelas.
A lua é uma nova verdade a cada noite
E sombras disputam a lua desonestamente,
Enquanto a bondade permanece em casa atrás de cortinas cerradas,
Escondendo sua beleza numa prece,
Virtuosamente esposada a um capuz monástico
 E não mente, ama ou sonha.

Se a bondade soltasse seu cabelo
E dançasse à noite perigosamente,
Se a bondade fosse quase tão amável quanto o pecado,
Eu teria tomado sua mão para seu próprio bem
E encontrado mil encantos na virtude.

Mas a vilania tem jeitos tão doces!

But Wickedness…

It is not for itself
That I love wickedness
But wickedness has such sweet ways!

Thieves walk at night
And make the night more silent.
Murderers love madness
And a moment’s high courage for killing.
It is not that I love killing,
But good men soften in their sanity
And smile too frequently.

Cruelty has a thousand charms.
Pain is a beauty lashed upon my back.
Oh, why is mercy kind?
Oh, why is justice blind,
Too blind for punishment?

Evil has as many enchantments as the night.
Lies are as mysterious as the stars.
The moon is a new truth each night
And shadows gamble for the moon dishonestly,
While goodness stays at home behind drawn blinds,
Hiding her beauty in a prayer,
Correctly wived to a monk’s hood.
And will not lie or love or dream.

If goodness loosed her hair
And danced at night with danger,
If goodness were as lovely half as sin,
I’d husband goodness then for her own sake
And find a thousand charms in virtue.

But wickedness has such sweet ways!






domingo, 17 de julho de 2016

Amor





Amor
(trad. Guilherme Preger)


Não foi por culpa do guarda
em meio a roncos de motor
em vez de gritar Para!
quando me viu gritou Amor.

Mesmo o sorveteiro
(vendia grátis qualquer sabor)
em vez de gritar ó o Brigadeiro!
ao olhar para mim
ele gritou Amor

Por toda cidade a mesma mania
todo mundo folgou o dia
mesmo os filósofos entenderam além
quão bom era o Bem que me quer bem
Os pobres pararam de perder no fim
os ricos de consumir com furor
em vez de gritar não ou sim
ambos ao me verem gritaram Amor.
Minha estadia na cidade sofreu um corte
e eu fui levado à corte.
O juiz disse que eu perturbava a paz
e o júri ainda o apoiou.  
O juiz levantou a sua mão
e em vez de Desista e Nunca mais
ele veio ao balcão
pegou minha mão
e me sussurrou Amor.

E a noite foi se tornando dia
eu fui embora sem companhia,
não voltarei a esta cidade também
então passei pela igreja na hora do louvor
e em vez de orar Amém
o coro estava cantando Amor. 

Amorby Arnold Weinstein
It wasn't the policeman's fault
in all the traffic roar
instead of shouting halt
when he saw me he shouted Amor.
Even the ice-cream man
(free ice creams by the score)
instead of shouting Butter Pecan
one look at me
he shouted Amor.
All over town it went that way
everybody took off the day
even philosophers understood
how good was the good 'cuz I looked so good!
The poor stopped taking less
the rich stopped needing more.
Instead of shouting no or yes
both looking at me shouted Amor.
My stay in town was cut short
I was dragged to court.
The judge said I disturbed the peace
and the jury gave him what for!
The judge raised his hand
instead of Desist and Cease
Judgie came to the stand
took my hand
 
and whispered Amor.
Night was turning into day
I walked alone away,
never see that town again.
But as I passed the church-house door
instead of singing Amen
the choir was singing Amor.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um homem

Ele virá não como um cavalo vem
tampouco uma cobra, sorrateira
e armada para o bote.
Ele virá como um homem
só, um homem simples, um homem
na medida exata de um homem.
Ele não estará acima do mal e do bem.
Este homem trará tão somente
um corpo com espessura de carne.
Um corpo que não tenha talvez uma história
nem explicações, mas palavras,
sons, ecos, gritos, ruídos e alardes,
ele não precisa de ouvidos para despejá-los,
mas que acolham seu silêncio,
este sim o ruído mal suportável. 
Ele não precisa de olhos que o admirem,
mas que reconheçam nesse corpo
a contida alegria em seu menor gesto.
Um homem e seu corpo,
talhado por aparelhos
e adestrado por batalhas,
ele aprendeu a não esmurrar os muros,
mas a contorná-los.
Há um encontro à espera deste homem,
ele não virá como um cavalo vem
tampouco um cão para ser domesticado,
ele virá como aquele que abandonou seu passado
e esqueceu seu futuro.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Água-viva

Começa então um caminho,
ele se confunde com o passo
como escondida nos braços
está a promessa do abraço.

No início, só sensações,
estranha esta vertigem,
talvez não seja início
pois não se enxerga a origem.

Aonde quer que se vá
para o passo é só passagem
onde soa doce melodia
avisar não levar bagagem

além do mais difícil afeto,
frágil, mas na carne impresso.
Não seria solução
cortá-lo por falta de nexo.

Tampouco necessário
carregá-lo como um estigma.
Este afeto leva a gestos
que se inscrevem no ar sem enigma,  

porém insondáveis. Como linhas
coladas a uma superfície
e que se integrassem a ela
como a grama numa planície

mas moventes como a água-viva
é a água mais viva e ativa
e que arde, pois é ardência
ela, a chama mais incisiva.

Neste mover não mais se discerne
o que está dentro, o que está fora,
É pulsação, batimento,
um ritmo dizendo Agora!,

a vibração na atmosfera
que faz do ar sopro e alento,
e traz à corrente sanguínea
elétrico estremecimento.

Excede toda posse e senso,
seu sentido qual seria?
Menos andamento que onda,
menos história que alegria.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Here's where the story ends

Aqui a história termina,
e ali ela recomeça,
como num quebra-cabeça
onde faltasse uma peça
que não tivesse importância
pois melhor é desmontá-lo
para juntá-lo em mil arranjos,
polígono de mil lados.
Cada dia é um abalo
para o qual faltam asas de anjo
mas que equilibra no embalo.
O sol lá fora é um fardo,
mas não falha sua fagulha
e ainda dá bom bronzeado.
O olhar da moça é um dardo
mirado em suas certezas,
mal treme sobre o salto-agulha
e nunca leva estabaco.
A vida é o que se segura
como pedras diminutas
que formassem estranho ábaco.
Qual secreta matemática
evitaria o desenlace
certo, a previsível cena?
Não há conclusão tão trágica
que também não tenha graça,
não sua significação cômica,
mas a que no instante acena
com a oportunidade cósmica,
aquela que, num relâmpago,
se funde com o fundo do osso
e dá um sopro no estômago.
Este é o clarão que mais cega
para que a retina fique fina
e que distante distingua
o traço invisível da linha.
Linha de enrolado novelo
ou insólita novela.
Linha para apurado tato
que se desfia sem destino
pois o fio é a própria fibra
com que se arma uma tela.
E que delicada língua
soletraria  a sílaba
com que se desdobra o segredo?
Mesmo a deriva é um enredo
como uma intricada trama
de uma rede em que cada nó
fosse seu ponto central.
Perder-se enfim não é mal,
perder-se é um caminho só,
perder-se é saber quão difícil
seria precisar qual
seu término, o seu início.

Guilherme Preger

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

come as you are

Imagem de André Dahmer

ninguém muda ninguém,
nem precisava
se, por debaixo da pele,
revolve a lava,

se, por dentro das veias,
corre álcool e ânsia,
se, no miolo da mente,
habita uma infância. 

-Venha, venha como é,
venha com sua nudez,
venha por inteiramente,
venha já, venha de vez.

ninguém muda ninguém
apenas se abre
o cofre, a fortaleza
guardada por sabres:

para que entre o vento,
para que surja o lance
de dados, erro ou azar,
para a  fortuna ter chance.

- Venha, venha como é,
venha como quiser:
como ave ou como anjo,
um felino ou uma  mulher.

ninguém muda ninguém,
é só um deixar-se
os dias, as noites,
as razões, os disfarces,

o que impede ou previne,
o que provoca alarma:
-Venha, venha como é,
mas não venha com uma arma.